O FILHO INCOMODA
Ouvi hoje de uma amiga que não poderia fazer tal coisa pois o filho incomodaria.
Foi dito entre os muitos deveres assumidos pelas mulheres atualmente, trabalho, carreira, vida pessoal, criação e educação dos filhos.
Advirto desde já o texto poderia ser sobre feminismo e, provavelmente este tema será abordado em outra publicação, mas hoje é sobre existência
A frase não representava a realidade do que era a intenção de quem disse, sua tradução mais aproximada seria, vou fazer o trabalho de casa, pois aqui consigo dar a atenção que ele precisa e ainda trabalhar.
A sociedade atual exige das pessoas atividades múltiplas em todas as horas disponíveis, por vezes me pego sentindo culpado por estar em algum horário em doce far niente.
Segundo Yuval Noah Harari, autor de “Sapiens, Uma Breve História da Humanidade” teríamos passado por alguns marcos tais como: o surgimento do humano moderno a 200 mil; a (r)evolução cognitiva a 70 mil e a (r)evolução agricola a 12 mil anos.
A revolução cognitiva seria segundo o autor, a transformação através da capacidade de realizar o pensamento abstrato que permite a comunicação através de conceitos vagos como amor, por exemplo, mas também possibilita o desenvolvimento do conhecimento.
A revolução agrícola, que transforma aquele ser humano de nômade para habitante.
Nesse ultimo florescem as sociedades a partir de aldeias, compartilhando e comungando costumes, crenças, línguas, e o que viriam a ser os conceitos de etnia, povo, nação, entre outros.
A obra é excelente, vale a pena ler, mas vou voltar rapidamente ao texto.
Antes da obtenção do conhecimento abstrato que possibilita a racionalidade, éramos apenas outras espécies de animais, com os mesmos riscos ambientais e imposição destes sobre a nossa sobrevivência.
Com a fixação através do aprendizado da agricultura e criação de animais, passamos a desenvolver várias formas de promover o bem estar, os cuidados e a possibilidade de termos vidas dignas (grifo possibilidade).
Só que a sociedade moderna, com todos os benefícios que reconhecidamente trás através de avanços médicos e tecnológicos, vem trazendo também problemas equivalentes aos encontrados antes da revolução cognitiva, onde aquele ser indefeso, seja a criança e o idoso, era tratado como uma desvantagem.
Se na antiguidade, defender-se de predadores tornava aquele que cuidava de seus pais e/ou filhos mais vulnerável, com necessidade de sacrifícios, a sociedade atual, também marca aqueles que tem que cuidar dos seus, como prejudicados.
Cuidar de um pai e mãe adoecidos, ou de um bebê, ainda totalmente dependente, reduz o tempo "produtivo" daquela pessoa.
O próprio desenvolvimento das cidades não prevê nada para estes. Tente levar seu pai idoso a uma consulta no centro de sua cidade, parando o carro e necessitando de auxilio para deslocamento. Tente não ficar com o coração na boca, ao tentar deixar seu filho de 10 anos ir até o mercado sem sua supervisão.
A infraestrutura das cidades, nossas carreiras, nossas vidas de um modo geral, são excludentes.
Por ser necessário, antevendo interpretações, explica-se que este texto não é contra as mulheres terem suas carreiras, não é contra quem não quer ter filhos, não é contra a construção das carreiras, nem mesmo quanto a evolução tecnológica. Não é ufanista nem utópico.
Mas se constata que ainda não pensamos na finitude seja pela morte, seja pelo tempo que passa e torna a criança adulto.
Se você não entendeu, não se preocupe.
Também não entendi ainda.
04/10/2022
Vou procurar um bordão de encerramento.